Minha avó, a figura materna da minha vida, faleceu este ano, em 2025. Cinco dias antes do meu aniversário, em abril.
Ela foi quem me deu afeto e carinho durante a infância. Dormíamos abraçadas em sua cama de solteiro: eu sempre com as pernas por cima dela, embalada naquele ronquinho gostoso… ah, que saudade!
A vovó me deu o apelido de Anjo, só me chamava de Anjo. Anos depois, eu já adulta, ela me explicou, no estacionamento do Bloco O da 406 norte, o porquê do apelido: “Seu apelido era Anjo porque você foi, de verdade, um anjo na minha vida; eu havia perdido a minha filha Lídia (aos 21 anos) e o seu avô dois anos antes do seu nascimento. Você veio como um sopro de vida pra mim, enviada por Deus como um anjo mesmo pra mim.”.
Que declaração de amor linda! Chorei, claro! E falei pra ela o quanto ela também foi a minha salvação, o meu porto seguro. Deus nos uniu para que curássemos as feridas uma da outra. Ela não apenas me protegia do meu lar desajustado, como me dava o colo que eu nunca encontrei nos braços de quem me pariu.
E esse era o meu maior temor na vida: perder a minha avó. Mas a verdade é que ela já havia ido embora: há 10 anos com alzheimer e, com o peso de 98 anos, uma saúde frágil. Ela já não mais me reconhecia nem conseguia se comunicar direito. Estava muito fraquinha fisicamente também. Então a sua partida foi triste, mas aceitável.
Então, este foi o meu primeiro dia das mães verdadeiramente sem ela, sem a presença física dela aqui na terra.
E, nesse mesmo dia, eu ouvi as duras palavras da minha mãe biológica, num áudio de whatsapp: “você é órfã de pai (sempre foi) e de mãe”. Não porque minha avó havia morrido, porque ela jamais reconheceria que quem exerceu esse papel na minha vida foi a mãe dela, mas, porque, após eu, finalmente, verbalizar os meus sentimentos presos há quase 50 anos, ela os rebateu com a previsível jogada: transferiu a culpa para mim, que, segundo ela, sempre a considerei uma péssima mãe. Então, eu era, afinal, órfã de pai e de mãe, já que só conheci meu pai aos 30 anos (conhecer no sentido de descobrir quem era mesmo, pois nunca havia visto sequer uma foto dele).
Portanto, sou mesmo a Hadassa, a órfã.
Concordo com as palavras dela. Que bom que ela própria declarou isso. Hoje me sinto liberta.
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